Deus Deve Ser Amado por Ele Mesmo

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

       
       Sendo Deus o que Ele é, precisamos buscá-lo por Ele mesmo e jamais como um meio para obter uma outra coisa. Quem quer que busque outros objetos e não Deus está sozinho; é possível que venha a conseguir tais objetos, mas jamais terá a Deus. Deus nunca é encontrado acidentalmente. "Buscar-me-eis, e me achareis. quando me buscardes de todo o vosso coração" (Jr 29:13). 

       Quem quer que busque a Deus como um meio para atingir um fim desejado, não encontrará Deus. O Deus poderoso, o criador dos céus e da terra. não será um dentre muitos tesouros, nem sequer e maior deles. Ele será tudo em todos ou nada será. Deus não se deixa manipular. Sua misericórdia e graça são infinitas e sua compreensão paciente é incomensurável. mas não ajudará os homens em seu es­forço egoísta para obter ganhos pessoais. Não auxiliará os homens a atingir fins que. uma vez alcançados, usurpem o lugar que por direito lhe pertence no seu interesse e afeição,

O cristianismo popular, entretanto, dá a sua maior ênfase à idéia de que Deus existe para ajudar as pessoas a progredirem neste mundo. O Deus dos pobres tornou-se o Deus de uma sociedade afluente. Cristo não mais se recusa a ser juiz ou divisor entre irmãos gananciosos. Ele pode ser agora persuadido a ajudar o irmão que o aceitou a aproveitar-se do irmão que o rejeitou.

Um exemplo crasso do esforço moderno para manipular Deus, favorecendo propósitos egoístas, é a história do conhecido comediante que depois de repetidos fracassos, prometeu a alguém que chamava de Deus que se o ajudasse a ter sucesso no mundo do palco ele o recompensaria contribuindo generosamente para o cuidado das crianças enfermas. Pouco depois teve êxito em várias casas noturnas e na televisão. Ele cumpriu a sua palavra e está levantando grandes somas em dinheiro para construir hospitais infantis. Essas contri­buições para a caridade, em sua opinião, são um preço bem pequeno a pagar pelo sucesso em um dos campos mais difíceis do empreen­dimento humano.

É possível desculpar a atitude desse artista como algo a ser esperado de um pagão do século vinte; mas que multidões de evan­gélicos na América do Norte acreditassem realmente que Deus tivesse algo a ver com o acontecido não pode ser tão facilmente posto de lado. Esta visão diminuída e falsa da divindade é uma das principais razões da imensa popularidade gozada por Deus hoje em dia entre os bem nutridos ocidentais.

O ensino bíblico é que Deus é Ele mesmo o fim para o qual o homem foi criado. "Quem mais lenho eu no céu?" clamou o salmista, "Não há outro em quem eu me compraza na terra" (SI 73:25). O primeiro e maior mandamento é amar a Deus com todas as fibras de nosso ser. Onde existe um amor assim, não pode haver lugar para um segundo objeto. Se amarmos a Deus quanto devemos, não pode­mos certamente sequer imaginar um objeto a ser amado além dEle, que possa ajudar-nos a obter.

Bernard de Clairvaux inicia seu pequeno e brilhante tratado sobre o amor de Deus com uma pergunta e uma resposta. A pergunta: por que devemos amar a Deus? A resposta: porque Ele é Deus. Ele desenvolve ainda mais a idéia, mas para o coração esclarecido pouco mais precisa ser dito. Devemos amar a Deus porque Ele é Deus, Além disto os anjos não podem pensar.

Sendo quem é, Deus deve ser amado por Ele mesmo. Ele é a razão para que o amemos, da mesma forma que é a razão de seu amor por nós e para todos os outros atos por Ele realizados, os que irá realizar e está realizando, perpetuamente. O principal motivo de Deus para tudo é o seu próprio prazer. A busca de razões secundárias é gratuita e perfeitamente inútil. Ela supre os teólogos de uma ocupa­ção e acrescenta páginas aos livros de doutrina, mas é duvidoso que apresente quaisquer explicações válidas.

Está, porém, na natureza de Deus o partilhar. Seus poderosos atos de criação e redenção foram feitos para o seu próprio prazer, mas o seu prazer se estende a todas as coisas criadas. Basta olhar para uma criança sadia brincando ou ouvir o canto de ura pássaro no fim da tarde e saberemos que Deus quis que seu universo fosse cheio de alegria.

Os que foram espiritualmente capacitados a amar a Deus por Ele mesmo, irão descobrir milhares de fontes brotando do trono cercado de arco-íris, e ofertando tesouros incontáveis que devem ser recebidos com gratidão reverente como sendo o transbordar do amor de Deus por seus filhos. Cada dom é um presente da graça que, por não ter sido buscado egoisticamente, pode ser gozado sem prejuízo para a alma. Neles se incluem as bênçãos simples da vida, tais como a saúde, o lar, a família, amigos congeniais, alimento, abrigo, as alegrias puras da natureza ou os prazeres mais artificiais da música e da arte.

O esforço de encontrar esses tesouros, buscando-os diretamente, em separado de Deus, tem sido a principal atividade humana no correr dos séculos; e este tem sido o fardo e o mal do homem. O esforço de obtê-los como o motivo oculto por trás da aceitação de Cristo pode ser algo novo sob o sol; mas novo ou velho é um mal que só pode terminar em condenação.
 
Deus quer que nós o amemos por Ele mesmo sem quaisquer razões  ocultas,  confiando  nEle  para   que   seja   tudo  o  que   nossa. naturezas requerem.  Nosso  Senhor disse isto muito bem:   "Busca pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas"  (Mt 6:33).
A.W.TOZER

 TEXTO EXTRAIDO DO LIVRO: O MELHOR A.W.TOZER ED.MUNDO CRISTÃO


Três Feridas Leais

quarta-feira, 24 de novembro de 2010


Permitam apresentar-lhes uma pequena dama, falecida há perto de seiscentos anos. Ela vivia,amava,orava e cantava na cidade de Norwich, na Inglaterra. Esta humilde mulher não tinha muita luz nem como consegui-la, mas o que é belo a seu respeito é que , com a escassa luz que tinha, ela andava com Deus, e tão maravilhosamente junto dele que se tornou fragrante como uma flor. E muito tempo antes da Reforma, era em espírito uma genuína evangélica. Ela viveu e morreu, e agora já faz quase seiscentos anos que está com o seu Senhor, mas deixou atrás a sua fragrância de Cristo.

A Inglaterra era um lugar melhor porque esta humilde senhora vivia. Ela escreveu somente um livro, um livro minúsculo, que se pode levar no bolso ou na bolsa, mas tão saborosamente substancioso, tão divinamente inspirador, tão celestial, que constitui distinguida contribuição à grandiosa literatura espiritual do mundo. A dama a quem me refiro é a Senhora Juliana.

Antes de espocar nesta radiosa e gloriosa vida que a fez famosa como grande cristã em toda sua região, ela fez uma oração, atendida por Deus. É nesta oração que se concentra o meu interesse nesta noite. Eis a essência da oração: “Ó Deus, dá-me, por favor, três feridas: a ferida da contrição, a ferida da compaixão e a ferida da aspiração por Deus.” Depois ela acrescentou um post-scriptum que acho que é uma das coisas mais lindas que já li: “Isto peço sem condição”. Ela não estava fazendo barganha com Deus. Queria três coisas, e todas as três para a glória de Deus: “Peço isto sem condição, ó Pai; faze o que peço e, depois, manda-me a conta, seja qual for o preço estará bem para mim.”

Todos os grandes cristãos foram almas feridas. É estranho o que uma ferida faz com o homem. Eis o soldado que parte para o campo de batalha. Ele vai cheio de pilhérias, energia e segurança própria; então um dia, uma raja de metralhadora o atinge, e ele cai – um homem batido, derrotado, choramingão. Num repente, todo o seu mundo sofre colapso à sua volta. E este homem, em vez do sujeito grandioso, forte e valente que pensava ser, subitamente se vê o menino chorão de outrora. É o que sempre se soube, me dizem clamarem os combatentes por suas mães quando ficam sangrando e sofrendo no campo de batalha. Não há nada como uma ferida para tirar-nos a auto-segurança, para reduzir-nos outra vez à infância, e tornar-nos pequeninos e incapazes à nossa própria vista.

Ousemos inclinar agora os nossos corações e dizer: ”Pai, tenho sido um cristão irresponsável e infantil – mas interessado em ser feliz do que santo. Ó Deus, dá-me três feridas. Fere-me com o senso da minha pecaminosidade. Fere-me com compaixão pelo mundo, e fere-me com amor por Ti que me mantenha sempre buscando, sempre sondando, sempre procurando e sempre achando.”
Se você ousar fazer essa oração com sinceridade e expressá-la diante de Deus, poderá ser este um ponto decisivo em sua vida. Poderá significar a abertura de uma porta de vitoria para você.
Permita Deus que assim seja. A.W.Tozer.

Trechos extraídos do texto “Três Feridas Leais.”
Livro: Homem: Habitação de Deus – Como a natureza divina entra no coração do Homem – Editora Mundo Cristão.